Recebeu dinheiro no MB Way de um desconhecido? Não devolva sem ler isto primeiro

Recebe 150€ no MB Way de um desconhecido e pedem a devolução? Não devolva. É a nova burla que a PJ investiga em Portugal. Saiba como reagir.

Pessoa a segurar um smartphone com uma notificação de dinheiro recebido no ecrã.

Uma notificação do MB Way. 150€ na sua conta. De um número que nunca viu. 🤔

Minutos depois, chega uma mensagem no WhatsApp. “Desculpe, enganei-me, pode devolver?”

Parece um lapso inocente. A pessoa pede desculpa, explica, agradece logo. Devolver o dinheiro é o que qualquer pessoa honesta faria. Só que, se o fizer, acabou de branquear capitais. E o seu IBAN fica registado num inquérito da Polícia Judiciária.

A PJ já abriu 264 inquéritos em 2025 por burla informática com transferência imediata de dinheiro. E o esquema é mais simples do que imagina.

Como funciona o esquema do “engano”

Tudo começa com uma transferência que você nunca pediu.

Um burlão envia entre 150€ e 200€ via MB Way para o seu número. O dinheiro aparece mesmo na sua conta, com notificação oficial e tudo. Até aqui, tudo parece normal.

Depois chega o pedido de devolução, normalmente via WhatsApp, de um número diferente do que fez a transferência. A história é sempre parecida: engano no último dígito, urgência, agradecimentos emocionados pela honestidade.

Se devolver, o dinheiro sai da sua conta para uma conta controlada pelos criminosos, que nada têm a ver com quem supostamente se enganou.

Na prática, aconteceu isto. Dinheiro obtido de outra vítima, tipicamente por phishing ou falsa venda online, entrou na sua conta como dinheiro sujo e saiu como dinheiro limpo, transferido por si, cidadão sem registo criminal.

Acabou de servir de mula financeira, sem se aperceber.

A qualificação jurídica é branqueamento de capitais

A lei chama-lhe assim, no artigo 368.º-A do Código Penal. A moldura penal chega aos 12 anos de prisão.

A PJ confirmou à imprensa que o esquema está sob investigação, com inquéritos abertos e queixas já apresentadas.

Há um pormenor jurídico que interessa: o crime exige dolo. Ou seja, intenção ou conhecimento. Quem age em boa-fé absoluta, sem qualquer sinal de alerta, não preenche o tipo criminal.

O problema é que a linha entre boa-fé e negligência consciente é muito fina. Se houve sinais evidentes (número diferente, pressão, histórias estranhas) e ignorou-os, a sua posição jurídica complica-se depressa.

E mesmo que não seja condenado, o seu IBAN fica registado num processo criminal. Quem quer isso no histórico?

Os números que explicam a escala do problema

A burla não é pontual. É sistémica.

  • 264 inquéritos na PJ em 2025 por burla informática com transferência imediata de dinheiro, segundo resposta escrita da PJ ao Observador.
  • 2 856 casos registados pela GNR até outubro de 2025 na mesma tipologia, depois de 3 392 em todo o ano de 2024.
  • 4 467 queixas conjuntas de PSP e GNR por burlas via MB Way em 2024, um aumento de 6% face a 2023.

Há um dado que explica o aparecimento desta variante. Em maio de 2024, o Banco de Portugal introduziu a confirmação de beneficiário antes das transferências. Resultado: a fraude por manipulação do ordenante caiu 77% nos três meses seguintes.

É provável que esta burla “por engano” seja a resposta dos criminosos a essa medida. Como já não conseguem induzir as vítimas a enviar dinheiro diretamente, pagam primeiro e induzem a devolução voluntária, contornando todas as proteções automáticas.

A inteligência criminal adapta-se depressa. A sua tem de se adaptar ainda mais.

O sinal de alerta que resolve a maioria dos casos

Há uma verificação simples que desmonta quase todas as tentativas: compare o número que fez a transferência com o número que pede a devolução.

Num verdadeiro engano, é a mesma pessoa. Portanto, é o mesmo número.

Nesta burla, quase nunca coincidem. O número do MB Way é de uma conta “mula” a montante. O número do WhatsApp pertence a outro telemóvel, por vezes estrangeiro, operado por quem coordena a rede.

Quando os números não batem certo, está perante uma tentativa de o envolver.

Outros sinais típicos de engenharia social associados a esta burla:

  • Pressão para devolver rapidamente, com urgência emocional (“é para o meu filho”, “preciso hoje”, “por favor”).
  • Pedidos para devolver por caminhos específicos, incluindo IBAN escrito por mensagem.
  • Recusa de esperar por devolução via canal bancário formal (“o meu banco é lento, prefiro MB Way”).

Qualquer um destes, isolado, já merece o travão. Dois ou mais, e não há dúvida.

O que fazer se já recebeu uma transferência suspeita

PJ, SIBS e DECO PROteste apontam para o mesmo caminho. Passo a passo.

  1. Não devolva manualmente. Nem via MB Way, nem via transferência bancária, nem em dinheiro. Qualquer devolução voluntária feita por si coloca-o dentro do circuito criminal.
  2. Corte toda a comunicação. Não responda a mensagens, não atenda chamadas, não justifique a demora. Tudo o que disser pode ser usado para pressão posterior.
  3. Contacte o seu banco imediatamente. Peça a reversão formal da operação. O banco tem canais próprios para tratar MB Way suspeitos e pode devolver o valor pelo mesmo caminho por onde entrou, sem que o seu IBAN seja o último da cadeia.
  4. Preserve todas as provas. Capturas de ecrã da notificação MB Way, das mensagens recebidas, dos números envolvidos, das horas exatas. Guarde tudo num sítio seguro.
  5. Apresente queixa. Presencialmente na PJ, PSP ou GNR, ou online em queixaselectronicas.mai.gov.pt. A queixa protege-o juridicamente e ajuda a investigação em curso.
  6. Mantenha-se firme perante qualquer pressão. A engenharia social destas redes está feita para insistir. A regra mantém-se em qualquer cenário: não devolva, não responda, deixe o banco tratar.

Por que razão saber isto já o protege

A tecnologia do MB Way cumpre o que foi desenhada para fazer. O que os burlões exploram é a honestidade automática de quem quer devolver o que não é seu, e essa reação só se consegue neutralizar com informação prévia.

Quem lê este artigo leva uma vantagem decisiva: reconhece a armadilha. Sabe qual é o primeiro sinal a verificar. Sabe a quem ligar. E sabe porque é que devolver manualmente é precisamente o que não fazer.

Partilhe este artigo com quem usa MB Way. Pais, filhos, colegas, vizinhos. Quem receber uma notificação amanhã e se lembrar deste texto não vai cair no esquema.


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