O país que teme a bolsa é o mesmo que mais investe em criptomoedas
Portugal teme a bolsa, mas é o país europeu que lidera na adesão às criptomoedas. Descubra porque é que investir em criptomoedas em Portugal é algo que se encontra em franca expansão.

Há algo de paradoxal no comportamento financeiro dos portugueses.
Os depósitos a prazo, certificados de aforro e contas-poupança continuam a ser o destino preferido do dinheiro das famílias num país que há décadas trata a bolsa com desconfiança.
No entanto, cada vez mais pessoas decidem investir em criptomoedas em Portugal, a um ritmo que coloca o país entre os mais expostos da Europa a este tipo de ativo.
Este artigo procura explicar este fenómeno e o que diz sobre a relação dos portugueses com o risco, a banca e o dinheiro que já não rende o que rendia.
Os dois números lado a lado e a distância entre os mesmos
Comecemos pelos números, lado a lado:
- Bolsa clássica: um estudo da Comissão do Mercado de Valores Mobiliários (CMVM), conduzido por investigadores das Universidades do Minho, do Porto e de Coimbra, concluiu que, em 2021, apenas 13% dos agregados portugueses detinham instrumentos transacionados em bolsa, com a riqueza das famílias concentrada em depósitos;
- Criptoativos: 43% dos investidores portugueses afirmam possuir criptoativos, quase o dobro da média europeia de 22%, segundo o relatório «People & Money 2024», da BlackRock, em parceria com a YouGov, divulgado no jornal ECO.
As metodologias diferem (uma mensura toda a população, outra só quem investe), mas a distância entre os números é elucidativa: Portugal está abaixo da média europeia na bolsa clássica e acima da mesma em criptomoedas.
A hipótese mais provável não é o apetite pelo risco, mas a desconfiança nas instituições
Se os portugueses fossem simplesmente mais tolerantes ao risco, seria de esperar maior exposição a ações, obrigações ou fundos diversificados, mas não é o que se observa.
A explicação mais plausível é que este comportamento reflete menos o apetite por risco do que uma desconfiança acumulada em relação às instituições financeiras tradicionais.
A memória coletiva de crises bancárias, como a queda do Banco Espírito Santo (BES) em 2014, ainda pesa: muitas famílias viram as poupanças de uma vida ficarem presas ou perdidas de um dia para o outro, sem qualquer controlo sobre a decisão.
A este episódio somam-se anos de austeridade, bancos resgatados com dinheiro público e uma perceção generalizada de que os intermediários financeiros protegem primeiro os seus próprios interesses e só depois os dos clientes.
Neste contexto, um ativo que não depende de um banco, de uma corretora tradicional ou de uma entidade central pode parecer, à primeira vista, mais independente do sistema que desiludiu tantas famílias, mesmo sendo, na prática, mais volátil e com muito menos proteção do que um depósito bancário.
O papel do depósito a prazo abaixo da inflação na fuga para ativos voláteis
Há também um argumento aritmético.
No final de 2025, os novos depósitos a prazo de particulares rendiam, em média, 1,36%, depois de 2,16% um ano antes, o que representa uma das maiores quedas da Zona Euro.
Em fevereiro de 2026, com a inflação a rondar 2,1%, esse dinheiro já perdia poder de compra antes mesmo do imposto de 28%. Ora vejamos:
- Juro bruto médio: cerca de 1,36%;
- Após imposto: cerca de 0,98% líquidos;
- Inflação no período: cerca de 2,1%;
- Resultado: poder de compra a diminuir todos os meses.
Isto não torna as criptomoedas mais seguras (a sua volatilidade pode gerar perdas superiores às de um depósito mal remunerado), mas ajuda a explicar a procura por alternativas fora da banca tradicional.
A retração de novos investidores em Portugal e a leitura que a BlackRock fez deste fenómeno
O relatório «People & Money 2024» trouxe outro dado revelador: Portugal registara uma queda de 12% no número de novos investidores, a maior retração entre os 14 mercados europeus analisados pela BlackRock e pela YouGov.
André Themudo, diretor da BlackRock em Portugal, associou o recuo à baixa literacia financeira do país e à elevada concentração em criptoativos, sugerindo que um maior conhecimento financeiro se traduz em menor exposição a este tipo de ativo.
O relatório «People & Money 2025» já mostra sinais de correção: os investidores em ETF quase duplicaram desde 2022, aproximando-se do milhão, um sinal de que a poupança nacional começa a diversificar-se para além dos depósitos e das criptomoedas.
Ainda assim, o país mantém um forte apetite por ativos digitais, o que reforça a ideia de que a educação financeira, mais do que a regulação, será decisiva para equilibrar esta carteira coletiva.
O que muda para os investidores em criptomoedas com o fim do regime transitório do MiCA e o novo reporte automático à Autoridade Tributária (AT)
Tudo o que foi dito até aqui descreve um refúgio: os portugueses que desconfiam da banca tradicional encontraram nas criptomoedas um ativo fora do alcance direto das instituições que os desiludiram.
Só que este refúgio está, neste momento, a ficar bem mais regulado e mais visível para o Estado, pelo que quem já investe em criptomoedas em Portugal precisa de perceber duas mudanças concretas:
1. Fim do regime transitório do regulamento relativo aos mercados de criptoativos (MiCA)
Até 1 de julho de 2026, as entidades já registadas junto do Banco de Portugal (BdP) antes de 30 de dezembro de 2024 podiam continuar a operar sem uma autorização plena do MiCA, um prazo que, entretanto, terminou.
Agora, qualquer prestador sem autorização está irregular, o que torna ainda mais importante confirmar se a plataforma em que se investe é supervisionada pelo BdP e pela CMVM.
2. Reporte automático à Autoridade Tributária (DAC8)
A Diretiva DAC8, em vigor desde 1 de janeiro de 2026, obriga as plataformas, incluindo exchanges estrangeiras com clientes portugueses, a reportarem automaticamente à AT a identidade, os saldos e as operações de troca ou transferência de criptoativos.
Na prática:
- As mais-valias de criptoativos detidos há menos de 365 dias continuam a ser tributadas a 28%;
- A isenção mantém-se acima de 365 dias, salvo alterações futuras à lei;
- Desde 2026, a AT cruza automaticamente os dados das plataformas com o IRS de cada contribuinte.
O espaço para operar na sombra fiscal fecha-se, precisamente quando mais portugueses colocam poupanças em ativos digitais.
Uma equação que exige mais informação e não apenas mais apetite
Portugal não é um país mais tolerante ao risco do que os seus vizinhos europeus. É, aliás, segundo a maioria das métricas, um dos mais avessos.
O que o distingue é o modo como uma parte dos seus investidores contornou a desconfiança nas instituições e a erosão das poupanças pela inflação, apostando num ativo que continua entre os mais voláteis do mercado financeiro.
Com o fim do regime transitório do MiCA e o reporte automático da DAC8, investir em criptomoedas em Portugal ganha mais transparência regulatória, mas não menos risco: a decisão exige informação, tolerância a perdas e, acima de tudo, responsabilidade.
Este artigo constitui material publicitário divulgado em nome da XTB S.A. com fins promocionais. Os instrumentos financeiros mencionados envolvem risco. Invista com responsabilidade.
A XTB é uma corretora europeia cotada em bolsa, com sucursal em Portugal autorizada pela CMVM (Comissão do Mercado de Valores Mobiliários), registada sob o n.º 341, operando num ambiente regulado e acessível a investidores portugueses.
Os CFD são instrumentos complexos e apresentam um elevado risco de perda rápida de dinheiro devido ao efeito de alavancagem. 74% das contas de investidores não profissionais perdem dinheiro quando negoceiam CFD com este distribuidor.
Deve considerar se compreende como funcionam os CFD e se pode correr o elevado risco de perda do seu dinheiro.





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