Onde o dinheiro rende na Europa este verão, dos depósitos ao crédito privado
O verão é a estação fraca dos mercados. Veja onde pôr o dinheiro a render, dos depósitos e Certificados de Aforro às obrigações e ao crédito privado.

O verão é a estação fraca dos mercados. Com meia Europa de férias, o volume de negociação cai, há menos compradores e vendedores, e alguns ativos ficam menos líquidos. Não é folclore de quem trabalha em bolsa. Um estudo académico sobre os mercados acionistas, de Hong e Yu, mostra que, no verão, o volume de transações desce e o custo de transacionar, medido pelos spreads, sobe.
Para quem investe em ações ou obrigações, isto conta. Para quem só quer pôr poupanças a render, a pergunta certa não é o que o verão faz aos mercados. É outra. Que parte do rendimento de cada produto depende mesmo do mercado, e que parte está fixada à partida? É aí que depósitos, obrigações e crédito privado se comportam de maneiras muito diferentes.
O que o verão faz aos mercados
O padrão repete-se todos os anos. Em julho e agosto, com menos gente a negociar, o volume de negociação na Europa recua e o mercado fica mais fino. Para dar um exemplo concreto, em agosto de 2025 o volume transacionado na Euronext caiu cerca de 10% face a julho, segundo os dados do próprio operador de bolsa.
Menos volume significa livros de ordens com menos profundidade e diferenças maiores entre o preço de compra e de venda. Para um ativo cotado, isto pode afetar a forma como se transaciona e oscila a curto prazo. A questão é saber quais dos produtos onde mete a sua poupança dependem realmente disto, e quais não.
Depósitos a prazo, quase indiferentes ao verão
Os depósitos servem para guardar liquidez, não para gerar grande rendimento. A taxa está presa à política do Banco Central Europeu e transmite-se pelo sistema bancário com algum atraso. Não se forma no mercado ao minuto, por isso não reage ao verão. Que haja menos gente a trocar de banco em agosto pouco muda.
O que mexe a taxa é a política monetária e a concorrência entre bancos. A taxa média dos novos depósitos a prazo de particulares estava em 1,42% em março de 2026, segundo o Banco de Portugal. Depois dos 28% de imposto, sobra cerca de 1,02% líquidos.
Em Portugal há ainda a alternativa do Estado. Os Certificados de Aforro da Série F foram fixados em 2,215% brutos para novas subscrições em junho de 2026, segundo o IGCP, e somam prémios de permanência a partir do segundo ano. Tal como os depósitos, dependem das taxas de juro, não da estação. As duas opções têm redes de segurança diferentes. Os depósitos bancários estão cobertos pelo Fundo de Garantia de Depósitos até 100.000€ por depositante e por instituição, em caso de insolvência do banco. Os Certificados de Aforro são dívida pública, com o capital garantido pelo Estado português.
Obrigações, onde a liquidez do verão se faz sentir
De entre estes três produtos, as obrigações são as que mais sentem a liquidez do verão, porque dependem dela para negociar. Com menos negociação em julho e agosto, os criadores de mercado ficam menos dispostos a manter títulos em carteira, os livros de ordens ficam mais finos e os spreads alargam. Ainda assim, o que mais pesa numa obrigação não é a estação, mas a evolução das taxas de juro, a duração, a inflação e a qualidade do emitente. A sazonalidade é um fator de contexto, não o principal.
Para o investidor, há uma distinção que muda tudo. Se comprar uma obrigação individual e a mantiver até à maturidade, recebe os juros previstos e o valor de reembolso no fim, desde que o emitente pague, e a oscilação diária do mercado importa pouco. Atenção a um pormenor. Se a comprou acima ou abaixo do valor nominal, o resultado final pode diferir da simples soma dos cupões. Se investir através de um fundo ou ETF de obrigações, o valor da posição mexe todos os dias. Quando as taxas de juro sobem, as obrigações já emitidas com cupões mais baixos perdem valor. Conservador não quer dizer imune a perdas temporárias.
Crédito privado e P2P, o menos sensível à estação
O crédito privado, onde entram as plataformas de crowdlending P2P, é o menos exposto à estação. A razão é estrutural. Em vez de comprar um ativo cotado, o investidor financia empréstimos a empresas, e o rendimento vem dos juros e do reembolso desses empréstimos, não do sentimento do mercado. As condições ficam definidas à partida, no momento do investimento. Não há cotação a subir e a descer todos os dias, no verão ou fora dele.
Aqui está o ponto que não pode passar ao lado. Menos oscilação visível não é menos risco. A estabilidade aparente do crédito privado vem da ausência de cotação diária, não da ausência de risco. O risco principal mantém-se, e é o incumprimento. A empresa financiada pode atrasar pagamentos ou não pagar, a garantia pode não chegar para recuperar tudo, e o dinheiro fica preso durante o prazo do empréstimo. E não é um depósito, por isso não tem a proteção do Fundo de Garantia de Depósitos.
Sazonalidade não chega para garantir rendimento
Junte as três peças e a conclusão é menos óbvia do que parece. A sazonalidade de verão, por si só, não garante rendimento nem segurança.
Os depósitos são indiferentes ao verão, mas continuam reféns da política monetária. Se o Banco Central Europeu cortar as taxas, a remuneração desce, em agosto ou em qualquer outro mês. As obrigações sentem a falta de liquidez do verão a curto prazo, mas o que pesa mesmo é a evolução das taxas e a qualidade do emitente. O crédito privado foge à oscilação do mercado, mas troca essa calma por risco de crédito e por dinheiro imobilizado.
Por isso é que, num ambiente em que as taxas estabilizaram e a inflação continua acima da meta, muitos investidores preferem instrumentos onde o rendimento está definido por contrato e depende menos do calendário e da próxima decisão do banco central. É essa a lógica por trás do interesse crescente no crédito privado, um movimento explicado no artigo sobre os bancos a apertarem o crédito às empresas.
Onde entra a Maclear
A Maclear AG é uma plataforma suíça de crowdlending P2P/P2B focada em empréstimos a empresas europeias. Está incorporada na Suíça e é membro da PolyReg SRO, uma organização de autorregulação reconhecida no âmbito da lei suíça de combate ao branqueamento de capitais. É um exemplo concreto deste tipo de crédito privado de retornos contratuais.
- Rendimentos anunciados até 16,5% ao ano, dependendo do projeto e das condições disponíveis na plataforma
- Prazos curtos, frequentemente na zona dos 9 a 18 meses, consoante o projeto
- Empréstimos colateralizados por ativos reais, como equipamento, inventário ou imóveis, embora isso não elimine o risco de perda
- Análise e scoring dos borrowers antes de cada projeto ser listado, segundo a plataforma
- Fundo de provisão para ajudar a cobrir atrasos temporários, sem constituir seguro nem garantia legal de capital ou juros
- Sem comissões cobradas pela Maclear em depósitos, investimentos ou levantamentos, embora possam existir custos do prestador de pagamento
- Investimento mínimo a partir de 50€
A plataforma atua também como agente de garantias em nome dos investidores. Em caso de incumprimento, centraliza o processo de recuperação em vez de cada investidor ter de tratar disso sozinho. Para ver como tudo funciona, partilhei a minha experiência na review da Maclear.
Antes de investir, leia este aviso
O crowdlending P2P é uma classe de ativos com risco real. Não é um depósito a prazo, não é coberto pelo Fundo de Garantia de Depósitos e o capital pode perder-se total ou parcialmente em caso de incumprimento. Alguns pontos a considerar especificamente sobre a Maclear:
- A Maclear é membro da PolyReg SRO para efeitos de anti-branqueamento de capitais, mas não é diretamente supervisionada pela FINMA, o regulador financeiro suíço. Os depósitos não estão cobertos pelo sistema suíço de garantia de depósitos
- Por estar na Suíça, a plataforma não está abrangida pelo Regulamento europeu ECSP aplicável aos prestadores de serviços de crowdfunding na União Europeia
- Os projetos financiados não são, por regra, empresas suíças, mas sim PME de outros países europeus, com forte presença no Leste e no Sul da Europa
- A plataforma de crowdlending é recente, em operação desde 2023, com histórico de incumprimentos ainda curto
Nada disto invalida automaticamente a plataforma. A Maclear divulga métricas positivas e um histórico de pagamentos pontuais, mas o tempo de operação ainda é curto para avaliar um ciclo completo. São pontos que merecem ser pesados antes de qualquer decisão. A regra de ouro mantém-se. Comece com valores pequenos, diversifique entre vários projetos e entre várias plataformas, e nunca aloque dinheiro que não pode dar-se ao luxo de perder.
E os impostos
Os juros de depósitos e outros rendimentos de capitais estão, em regra, sujeitos a retenção na fonte à taxa liberatória de 28%, nos termos do artigo 71.º do Código do IRS. Por isso uma taxa bruta de 2,00% não entra limpa no bolso. Depois do imposto, fica em 1,44% líquidos.
Com plataformas estrangeiras, a fiscalidade exige mais atenção. A Maclear não retém imposto na origem, pelo que a tributação fica do lado do investidor. Em Portugal, estes rendimentos são, em regra, declarados no Anexo J da declaração de IRS, com a Suíça identificada pelo código de país 756. Confirme sempre o tratamento concreto no relatório fiscal que a plataforma disponibiliza, porque depende da natureza do rendimento.
Então o que fazer com o dinheiro este verão
No fim, a pergunta não é qual destes rende mais no verão. É qual a parte do seu dinheiro que pode ficar imobilizada e em risco para tentar render mais, e qual a parte que tem mesmo de estar segura e disponível.
- Dinheiro que não pode falhar. Fundo de emergência e poupança de curto prazo. Depósitos, contas remuneradas credíveis ou Certificados de Aforro, com segurança e liquidez à frente da taxa.
- Dinheiro de médio prazo. Certificados de Aforro, depósitos promocionais e obrigações de qualidade, onde o prazo importa tanto como a taxa.
- Dinheiro que pode arriscar por mais rendimento. Crédito privado e crowdlending P2P, como a Maclear, sabendo que troca liquidez e segurança por risco de crédito.
Defina isso primeiro. A escolha entre depósito, Certificados de Aforro, obrigações ou crédito privado vem depois, e fica bastante mais simples.




