Vender o telemóvel ou o portátil usado: o que apagar antes para não dar a sua identidade

O reset de fábrica não apaga o que você pensa. A checklist exata do que fazer antes de vender o telemóvel ou o portátil sem dar a sua identidade de borla.

Dados pessoais em telemóvel e portátil usados à venda

Vender o telemóvel ou o portátil antigo é dinheiro fácil e parado à espera. Os aparelhos de hoje, bem repostos, são razoavelmente seguros. O problema quase nunca é a tecnologia. É o erro humano: vender com uma sessão aberta, com o cartão de memória lá dentro, com o portátil formatado à pressa. Esse erro expõe-no na mesma, seja o aparelho de 2014 ou de 2026. Aqui está o que fazer antes de vender, por ordem.

Antes de vender o telemóvel

  1. Cópia de segurança do que quer guardar. Depois disto não há volta. Fotos, contactos, ficheiros, tudo para a cloud ou o computador.
  2. Terminar sessão em todas as contas, à mão. Email, redes sociais, apps do banco, MB WAY, carteira digital e, sobretudo, a conta Google (Android) ou o ID Apple (iPhone). No iPhone, sair do iCloud e desativar o “Find My”. Saltar este passo deixa sessões e dados sensíveis ativos em apps que não removeu, e pode ainda bloquear o aparelho à sua conta antiga, deixando o comprador sem o conseguir ativar. É o erro mais comum.
  3. Tirar o cartão SIM e o cartão de memória. O cartão de memória muitas vezes não é encriptado e o reset pode não lhe tocar. Tire-o sempre.
  4. Confirmar que o aparelho está encriptado. iPhone com código de desbloqueio definido já está. A maioria dos Android recentes também vem encriptada de origem; confirme em definições, segurança. Se não estiver, ative e espere que termine.
  5. Só agora fazer a reposição de fábrica. Num aparelho encriptado e com as sessões fechadas, é este passo que torna o conteúdo ilegível.
  6. Verificar. Ligar o aparelho. Deve arrancar como saído da caixa, sem pedir a sua conta antiga. Se pedir as suas credenciais, ficou uma sessão aberta. Não venda assim.

Antes de vender o portátil

É onde as pessoas são mais descuidadas. Uma formatação rápida ou uma reinstalação simples do Windows apaga o índice que aponta para os ficheiros, não os ficheiros em si, que ficam recuperáveis até serem reescritos. E num portátil o que está em jogo costuma ser pior: declarações de IRS, faturas, fotos de cartões, palavras-passe guardadas no navegador.

  • Windows: não basta formatar. Use a opção “Repor o PC” e escolha “Remover tudo” com a opção “Limpar dados” ativada, que a Microsoft recomenda para quem vai vender ou doar. (A própria Microsoft nota que esta função é para uso doméstico e não cumpre normas industriais de eliminação; para dados muito sensíveis, ver o ponto seguinte.)
  • Disco SSD (a maioria das máquinas recentes): o ideal é ter a encriptação ativa desde sempre, e não só agora. No Windows é o BitLocker, no Mac o FileVault. Se só a vai ativar à pressa, encripte a unidade inteira e não apenas o espaço usado, e só depois faça a reposição completa. Para dados muito sensíveis, prefira a função de “secure erase” do fabricante do disco.
  • Disco rígido tradicional (HDD, máquinas mais antigas): além da reposição, uma ferramenta gratuita de apagamento seguro que reescreve o disco inteiro é fiável. Em SSD a reescrita é menos garantida (pela forma como gerem a memória), por isso aí a encriptação é o que conta.
  • Sempre: antes de apagar, terminar sessão e retirar a autorização do computador nas contas que o permitem (conta Microsoft, ID Apple, streaming, gestor de palavras-passe) e limpar as palavras-passe guardadas no navegador.

Porque é que a ordem importa tanto

Quando apaga um ficheiro, o aparelho não o destrói. Marca aquele espaço como livre para reescrever por cima. Até isso acontecer, o ficheiro continua lá, invisível para si mas recuperável por quem tenha o software certo. É como esvaziar a reciclagem e conseguir recuperar o que lá estava.

Numa experiência conhecida na área da segurança, a empresa Avast comprou 20 smartphones Android usados num site de leilões, todos com reposição de fábrica feita pelos donos, e recuperou mais de 40.000 fotografias (algumas íntimas), além de mensagens, contactos e dados que identificavam antigos proprietários.

Noutro estudo, da Universidade de Cambridge, recuperaram-se credenciais de acesso à conta Google na larga maioria dos aparelhos analisados, mesmo após o reset. Os dois casos são antigos e incidiam sobre versões de Android pouco protegidas, por isso não descrevem o aparelho que provavelmente tem na mão. Mas ilustram o princípio que continua válido: apagar ou repor nem sempre destrói.

É aqui que entra a parte que ainda hoje o afeta. Os aparelhos modernos resolvem grande parte disto com a encriptação: num aparelho encriptado, a reposição não precisa de esfregar a memória toda, basta destruir a chave, e sem chave os dados recuperados são ruído. Por isso o passo da encriptação na checklist não é decorativo, é ele que faz a reposição funcionar de verdade. Mas a encriptação não o protege de uma sessão do banco que ficou aberta, de um cartão de memória esquecido lá dentro ou de um portátil formatado à pressa. Esse risco não envelheceu nada. Depende só de você fazer, ou não, os passos pela ordem certa.

E o que está em jogo nunca foi tão alto. O telemóvel deixou de guardar fotos e contactos para guardar a app do banco, o MB WAY e o email que recupera todas as suas outras contas. São cinco minutos a mais antes da venda. Valem mais do que o aparelho inteiro.

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